25/02/2007

À Procura de Um Poema

 
Comecei a gostar de poesia ainda na 4ª classe. O livro de leitura que foi adoptado no colégio tinha muitos textos de poesia. Um deles foi do meu agrado e foi a minha inspiração nos meus tempos de poetiza. Sabia-o de cor, mas quando uma vez o li algures, ele estava mais longo, o que logo me fez pensar que o poema poderia ser mais logo (não sabia eu o quanto estava certa). Durante décadas procurei tanto o poema como o seu autor — o cabo-verdiano Jorge Barbosa (1902-1971). Através da Net, encontrei alguns dados biográficos do poeta, mas a sua obra não figurava em nenhuma editora. Até que, há coisa de um ano, consultando o site de uma Universidade norte-americana, soube da publicação da obra poética de Jorge Barbosa pela Imprensa Nacional. Numa semana tinha o livro comigo e, sofregamente folhei as mais de 400 páginas para encontrar o poema do qual não sabia o título — no livro da 4ª classe tinha sido posto um título diferente. Finalmente encontrei-o. É muito mais longo do que aquele que eu (em vão) sabia de cor. Teria sido cortado pela censura?


__________________________

Segue o poema completo:
 

PAISAGEM


Malditos
estes anos de seca!
 
Mete dó
o silêncio triste
da terra abandonada
esmagada
sob o peso
do sol penetrante!
 
Há quanto tempo não rodam
as pedras dos moinhos!
Há quanto não se ouve
o som monótono e madrugador
dos pilões cochindo...
  — Que é desse ruído anunciador
  das refeições do povo?
 
De dentro das casas
nem fio tenuíssimo
de fumo subindo...
 
......................................................
 
Pobres enxadas
que não servem mais
esquecidas nos cantos dos quintais,
cobertas
de poeira e de estrume...
 
  Coisa inútil as enxadas,
  deixadas
  sem cabos
  por ali
  ao abandono!
 
Árvores pasmadas
sequiosas
com restos ainda
dos ninhos que abrigaram,
deixam rogativas silenciosas
no desolamento da paisagem!
 
  E a terra seca,
  cheia de sol!
 
De dentro das casas
nem fio tenuíssimo
de fumo subindo...
 
Em tudo
o cenário doloríssimo
da estiagem
— da fome!
 
 
Jorge Barbosa, Obra Poética, Lisboa, INCM, 2002, pp. 59-60.