25/02/2007

Sonhando Com Delvaux


Há mais de duas décadas que tenho vindo a conhecer, estudar e me apaixonar pela obra do pintor belga Paul Delvaux (1897-1994). Na verdade, acho a corrente surrealista deveras intrigante, mas Delvaux tem um estilo que me fascina muito mais. Não me cabe aqui dissertar sobre a pintura surrealista ou sobre toda a obra deste pintor. Para tal, podem consultar o site da Fondation Paul Delvaux (www.delvauxmuseum.com). Contudo direi porque a obra de Delvaux me fascina. As duas primeiras obras que conheci foram “Afrodite Adormecida” e “A Estrada para Atenas”. Ambos são nocturnos em que as personagens femininas vagueiam entre elementos de arquitectura greco-romana. O ambiente nocturno, com os seus contrastes de luz e sombra; as mulheres, que parecem tanto espectadoras como caminhando num sono sonâmbulo; os edifícios, tirados de algum lugar da História Antiga. Tudo isto me fascinou e, mesmo actualmente, são os nocturnos os meus preferidos.

À medida que ia conhecendo mais pinturas de Delvaux, sempre me surpreendia. Ficava longos momentos observando a imagem (infelizmente só na Net), imaginando-me a caminhar naqueles cenários imaginários que me pareciam familiares. Sei da associação que o Surrealismo tem com os sonhos ou com o subconsciente; e dado que sou uma pessoa que sonha muito, muitas vezes com lugares belos e fantásticos, e me recordo, por muitos anos, de grande parte dos meus sonhos, talvez por tudo isto os quadros de Paul Delvaux me cativam. Recentemente, descobri o porquê de tudo isto. Num artigo sobre uma exposição deste pintor era referido o seguinte: “Paul Delvaux é o pintor dos sonhos e da poesia. Ele convida-nos a partilhar esses sonhos e essa poesia e oferece-nos a possibilidade de partir em mil viagens. Deixa-nos contudo uma maravilhosa alternativa — a liberdade de escolha, segundo a receptividade individual.” (Tradução do Inglês de uma notícia publicada pela Fondation Paul Delvaux) É isto exactamente, palavra por palavra, o que sinto ao observar uma pintura de Delvaux. A que mostro aqui é um belo exemplo disso.
 
Para além do facto de nele existir uma estação de comboios, que já por si convida à viagem, ela está envolvida, não por altas paredes, mas sim por uma floresta ensombrada pela noite. Os especialistas poderão dizer, entre outras coisas, que os caminhos-de-ferro fazem parte das recordações de infância do pintor e são um tema muito abordado na sua obra. Para mim, tudo se parece com um cenário dos meus sonhos.
 
La Gare Forestière (1960)