07/06/2010

Uma Casa Na Madragoa

Em criança, costumava visitar uns familiares que moravam na Travessa das Isabéis à Rua da Esperança. Chegada à porta, uma grande porta de duas folhas empoleirada do alto de dois degraus de pedra lioz, batia-se com a aldrava duas vezes (era um 2º andar). De lá de cima espreitavam e sorriam; então a porta abria-se vagarosamente, quase fantasmagoricamente, para a escuridão.

Começo da Travessa das Isabéis (esquina com a Rua da Esperança). O prédio de que falo, o nº2, é o primeiro à direita. À esquerda, com porta para a Rua sa Esperança, ficava a então famosa Casa dos Caracóis da Esperança.

 A escada era provida de um curioso sistema de cordas e arames: junto ao corrimão de cada andar, puxava-se um segmento de corda e a porta da rua abria-se, depois, com o seu peso, fechava-se ruidosamente.
 
Depois de subirmos os íngremes degraus de madeira, primeiro às escuras e depois já com a claridade das janelas da escada, chegávamos à não menos interessante porta do 3º andar. Era grande, robusta e também de duas folhas. Havia uma argola que se puxava para tocar um sininho.
 
Entrar na casa das minhas titis (assim eu as tratava) era, para mim, entrar num antigo conto infantil.
 
Numa das salas havia uma telefonia de capela, um louceiro com uns copos que se chamavam sidónios (alguma alusão a Sidónio Pais) e figuras de louça do actor cómico americano Harold Lloyd.
 
Na cozinha pavimentada com o belo ladrilho hidráulico, havia uma grande talha para a água, em barro vidrado com uma torneirinha de latão, onde por vezes estava pendurada uma pescada arrepiada para o almoço do dia seguinte (não tinham frigorífico). O trem de cozinha, de esmalte azulado, estava todo pendurado numa das paredes e aí estava também uma caixinha com a palavra "areia" escrita — antigamente não havia esfregões de aço, a louça era "areada".
 
A sala de jantar era a mais bonita da casa. Os puxadores das portas, de vidro facetado, tinham o mesmo tom de verde forte das paredes e nestas inúmeras faianças originais de Rafael Bordalo Pinheiro. Os móveis, por toda a casa, eram estilo Henrique II, muito ao gosto da classe média na viragem do século XIX para o XX. Num dos aparadores estavam expostas garrafas de bebidas enegrecidas pelos anos (entre elas uma "Mosca" quase centenária); no outro, algumas louças de um serviço de Sacavém. Junto da janela ensolarada, que dava para a Rua da Esperança, uma frondosa avenca parecia uma ténue cortina verde a condizer com o resto da sala.
 
Lá pelos anos 70, as titis mudaram-se para Alcochete. Mas lembro-me quase fotograficamente da casa da Madragoa onde eu me entretinha a brincar com botões, comia um franguinho corado delicioso e depois dormitava ao som da conversa interminável das mulheres.

A Rua da Esperança. Numa destas portas, do lado direito, ficava o, durante muito tempo célebre, Endireita da Esperança.

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